quinta-feira, 16 de março de 2017

Opinião: "Jardins da Lua" - Steven Erikson

Título: Jardins da Lua
(The Malazan Book of the Fallen #1)
Autor: Steven Erikson
Editora: Saída de Emergência
ISBN: 9789896376277
Páginas: 656

Sinopse: Quebrado pela guerra, o vasto império Malazano ferve de descontentamento. Os Queimadores de Pontes do Sargento Whiskeyjack e Tattersail, a feiticeira sobrevivente, nada mais desejam do que chorar os mortos do cerco de Pale. Mas Darujhistan, a última das Cidades Livres, ainda resiste perante a ambição sem limites da Imperatriz Laseen. Todavia, parece que o Império não está sozinho neste grande jogo.
Sinistras forças das trevas estão a ser reunidas à medida que os próprios deuses se preparam para entrar na contenda… Concebido e escrito a uma escala panorâmica, Jardins da Lua é uma fantasia épica da mais elevada qualidade, uma aventura cativante da autoria de uma excecional nova voz. Verdadeiramente épico, Erikson não tem igual quando o assunto é ação e imaginação, e junta-se à classe de Tolkien e Stephen Donaldson na sua visão mítica.

(pode conter spoilers)

Depois de criar uma primeira impressão que se assemelha um labirinto Kurald Galain invocado Anomander Rake, de certa forma ultrapassa-se a aura de respeito imposta pelo livro e torna-se inevitável ficar embrenhado neste mundo criado por Steven Erikson.

Digo isto porque de facto o meu processo de entrada neste livro não foi fácil, sendo que esse sentimento perdurou pelo menos pelas primeiras 100 páginas. Dei por mim imensas vezes a visitar as contra-capas frontal e traseira e verificar se as novas personagens que estavam a ser apresentadas estavam entre os retratos ilustrados que esta edição possui. Do começo ao final do livro foram também muitas as visitas aos glossários. Isto ocorre essencialmente devido a três situações:

1. Ainda que a narrativa se foque apenas em algumas personagens como Paran, Lorn, Crokus, Baruk, Ben Ligeiro ou Kruppe, existem muitas personagens diferentes neste livro que são recorrentemente referidas. tornando-se muitas vezes difícil compreender qual o seu papel e importância no plano geral dos acontecimentos deste livro e dos restantes nove volumes da saga.

Às personagens do "plano terreno", são ainda adicionados Deuses, e Ascendentes que na maioria das situações têm um nome próprio mas também têm uma denominação dentro da Casa que representam. Temos por exemplo Cotillion que também é conhecido e frequentemente chamado de "A Corda" ou "Patrono dos Assassinos".

Se considerarmos as várias Casas e a hierarquia de membros que cada uma possui, os mais de 10 diferentes Labirintos de Magia e as muitas raças que existem neste Mundo, é de louvar a criatividade de Steven Erikson e agradecer o bom senso de serem incluídos no livro os glossários referidos anteriormente.

2. Com tanta variedade por vezes surgem frases que a meu ver tornam-se confusas por usar de forma consecutiva tantos termos característicos a este mundo.

3. Ao longo do livro, temos personagens a sair do plano real e a transitarem para dentro de sonhos, labirintos de magia ou realidades alternativas sendo que também não é incomum que as transições entre estes vários locais não tenham como ponto de origem o plano real.

Por vezes estas mudanças não são perceptíveis com uma primeira leitura e requerem que se volte atrás para tentar perceber quando exactamente acontece o salto de um plano para o outro. Por exemplo uma personagem pode ser atingida por um ataque de magia e ir parar a um labirinto e nesse labirinto ser imediatamente tocada por um Deus e através disso, e em pouco tempo, é transportada para um labirinto totalmente diferente.

Devo referir que estes pontos não deverão ser de modo algum impeditivos em relação à leitura do livro. Com um pouco de paciência para voltar umas linhas atrás quando necessário e com um marcador para rápido acesso aos glossários, facilmente se ultrapassam estes obstáculos e assim que se consegue entrar "na onda" da leitura as páginas começam a ser lidas com maior fluidez.

Voltando às personagens e tentando não entrar em demasia em território de spoilers, existem algumas que morrem. Existem outras que desaparecem e deixam a dúvida se desapareceram para sempre ou apenas até um momento conveniente em próximos livros.

Isto leva-me a falar sobre a maneira como a sua morte é tratada nesta história e o facto desse tratamento me deixar algo dividido.

Por um lado mesmo personagens que se consideravam ser importantes, morrem de forma anti-climática e isso parece de certa forma reduzir o seu papel e o seu poder depois de terem sido engrandecidas pelas descrições do autor. Por outro lado, esse desprendimento pelas personagens consegue trazer à narrativa uma visão muito prática e terra-a-terra. Existem tantos acontecimentos a ocorrer e com tantas personagens envolvidas, que ao final do dia, não importa o quão poderosos ou importantes sejam, a sua morte torna-se só mais uma entre tantas outras e o mundo segue indiferentemente em frente com mais guerras, revoluções e intrigas.

Contudo, a meu ver isto não desculpa a resolução que teve o conflito com o Tirano Jaghut. Após a história girar por algum tempo à sua volta e o facto dele ser praticamente (e literalmente), o terror adormecido deste livro, a sua derrota acabou por ser demasiado rápida. Esperava com alguma antecipação pelo que conseguiria fazer se adquirisse o seu poder por completo.

A conclusão dada a Raest, poderá ser um sinal que este Mundo conseguirá a proeza de nos próximos livros ter personagens mais poderosas do que uma raça ancestral ou do que muitos Deuses e isso, enche-me de expectativa.

É também com renovada curiosidade que espero por uma presença mais efectiva da Imperatriz Laseen nos próximos livros. A mente por trás do Império Malazano e dos acontecimentos relatados nesta saga, não tem mais do que duas curtas aparições em todo o livro e tudo o que se vai conhecendo sobre a sua personalidade provém essencialmente das referências feitas pelas restantes personagens.

Tendo em consideração o que foi escrito nesta crítica até ao momento, a classificação de quatro estrelas que dei ao livro pode ser colocada em causa. No entanto, independentemente da complexidade do livro e da grandiosidade do mundo criado por Steven Erikson por vezes me apanhar desprevenido e me fazer voltar um ou dois parágrafos atrás de modo a realmente compreender o que aconteceu, dei por mim a gostar bastante desta narrativa. 

As personagens têm uma balança moral equilibrada. Não existem personagens que sejam de modo inato boas ou más. As suas ações derivam maioritariamente dos seus objetivos e crenças. Em todas elas existe pelo menos um argumento na sua linha de pensamento com o qual consigo facilmente identificar-me. Isto torna as personagens realistas e acima de tudo humanas.

Este equilíbrio na representação das personagens, é igualmente transportado para as diferentes relações relatadas na história. Existem diferentes tipos de romance, de amizade, de respeito, de companheirismo. Todos eles são descritos sem exageros e sem pressas, culminando em interações que poderíamos com facilidade presenciar na vida real.

É também de realçar que em nenhum momento o autor dá a mão ao leitor. Não existem grandes explicações do porquê e como muitas das coisas acontecem mas é refrescante ler um livro que não sente essa necessidade.

Recomendo vivamente este livro aos amantes de fantasia épica, aos amantes de mundos e personagens bem construídas e aos lutadores e com paciência de ferro que vão conseguir aguentar a espera entre cada um dos próximos nove livros.

Numa saga com dez livros, e tendo em conta os acontecimentos neste Jardins da Lua é difícil não olhar para este volume como "apenas" um prólogo (que espicaça e de que maneira) para o muito que estará para acontecer.

Li algures uma review ao livro em que a pessoa afirmava que depois de ter lido os dez livros da saga, nunca mais conseguiu olhar para livros de fantasia do mesmo modo, que mais nenhum livro lhe conseguiu oferecer a complexidade e riqueza da Saga do Império Malazano.

Se tal me acontecer será um mau hábito que acolherei com todo o gosto.

Com este pensamento em mente, faço figas para que a Saída de Emergência leve esta épica empreitada até ao final sendo que já aguardo com expectativa notícias sobre um possível lançamento do segundo volume.


Leitura com o apoio da editora Saída de Emergência

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